By

Um dos mais importantes monumentos religiosos de Nápoles é a igreja do Purgatorio ad Arco, um lugar onde sagrado e profano se unem e onde é possível conhecer um pouco da ligação dos napolitanos com o culto das almas do purgatório. É curioso, delicado, interessante.

Situada na parte mais antiga de Nápoles, na Via dei Tribunali, a Igreja de Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco (em português, Santa Maria das Almas do Purgatório) é um dos símbolos da “Nápoles misteriosa”. Ela fica bem no meio do Decúmano Maior – uma das três estradas principais construídas no século V a.C., portanto em época grega, e que constituíam o coração do centro antigo da cidade.

A igreja do Purgatorio ad Arco (ela é mais conhecida por esse nome, porque seria um problema todas as vezes ter que pronunciar Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco) foi construída em 1616 por um grupo de nobres que havia fundado alguns anos antes a Congregação de Purgatório ad Arco, uma instituição criada para ajudar os pobres, doentes e mulheres em dificuldades econômicas e sociais. A congregação tinha também o objetivo de realizar missas diárias para as almas do purgatório.

A construção da igreja foi atribuída a Cosimo Fanzago mas, na realidade, o produto final é o resultado do trabalho de um grupo de escultores famosos. A adição do termo “ad Arco” ao nome da igreja indica que ela foi construída perto de uma torre medieval com um grande arco, o qual infelizmente foi demolido no início do século XVI pelo vice-rei Don Pedro de Toledo.

 

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

O altar. Observem os crânios lá no fundo. Outra curiosidade: na parte esquerda do altar fica o monumento fúnebre de um dos criadores da igreja e da congregação, Giulio Mastrillo. Outra lenda narra que Giulio decidiu construir o complexo do Purgatorio ad Arco depois de ter sido atacado por bandidos, mas salvo por um grupo de almas por ele invocadas naquele momento.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

Um detalhe do altar.

Algo que pode parecer bizarro para muitas pessoas, é o fato desta igreja ter, junto com as decorações tradicionais que encontramos em qualquer igreja católica, crânios humanos e elementos que simbolizam a fugacidade da vida e a chegada a qualquer momento da morte. Já no portão de entrada da igreja há dois crânios e dois ossos de bronze cruzados, uma espécie de marca registrada que é repetida na esplêndida fachada barroca e que nos dá a ideia de que algo sinistro e macabro nos espera lá dentro, embora extremamente fascinante para nós dentro.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

A fachada barroca da Igreja. Foto do WikiCommons porque não consegui fotografar a parte externa, visto que era um dia de muita chuva.

É justamente esse ar macabro da Igreja do Purgatorio ad Arco de Nápoles que a transformou em uma espécie de atração turística. Na igreja são realizadas normalmente missas, como em qualquer outro templo católico, mas o seu hipogeu, ou seja, a parte subterrânea, é o lugar que chama mais a atenção do visitante. Lá encontram-se túmulos cavados no chão, bem como umas espécies de nichos de madeira com ossos e muitos ex-votos, flores, velas, objetos que testemunham o culto dos defuntos ao qual os napolitanos ainda estão muito ligados.

 

O culto dos mortos em Nápoles

O culto do Purgatório se difundiu em Nápoles no início do século XVII, quando, em ocasião da Contrarreforma da Igreja Católica, esta o propôs como uma das principais práticas religiosas para estabelecer, através dos votos, uma ligação litúrgica entre os vivos e os mortos.

Para os napolitanos, as almas dos mortos influem poderosamente sobre os vivos e são vistas como entidades espirituais do bem, que devem ser honradas, respeitadas e às quais recorrer para obter verdadeiras graças (igual a como se faz com os santos da igreja católica). Os ossos, mais especificamente o crânio, representam o meio material para estabelecer um contato com o espírito.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

alma pezzentella (palavra em italiano que deriva do latim petere: pedir), ao qual se pede a graça não é um parente ou um amigo falecido, é uma alma anônima ou abandonada, a qual é “adotada” pelo vivo que está pedindo a graça. Por isso as pessoas cuidavam dos nichos, pintando, decorando, colocando azulejos, de forma que fosse mantido sempre em boas condições.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

No hipogeu da igreja.

O hipogeu da Igreja do Purgatorio ad Arco antigamente era considerado um lugar privilegiado, destinado à comunicação com as almas do purgatório. Entre todos túmulos e ossos, destaca-se em particular um crânio coberto por um véu de noiva, colocado sobre uma almofada branca e ao qual foi atribuído o nome de Lucía, porque era uma menina que devia ter cerca de 16 anos quando morreu. Ao redor do crânio foi criado praticamente um altar e é um lugar que nos faz entender o quanto os napolitanos estão ligados a essa tradição de devoção aos mortos. No altar há outros dois crânios, inclusive outro crânio feminino com véu e coroa, provavelmente porque por um período foi venerado o crânio errado, então preferiram deixar o outro lá.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

Lucia é o crânio de baixo. Os dois de cima, segundo a imaginação da população, seriam os servos da moça.

Muitas pessoas vão ao nicho/altar de Lucía pedir a ela a cura de uma doença ou de um coração partido.  De fato, na base do altar se encontram várias flores de plástico, fotografias, terços e objetos pessoais!

Uma curiosidade: São inúmeras as lendas ligadas à identidade de Lucia e é praticamente impossível saber quem ela realmente era. Uma das histórias mais contadas diz que Lucia era filha única do príncipe de Ruffano, Domenico D’Amore, e foi prometida ao marquês Giacomo Santomago. No entanto, Lucia casou contra a própria vontade e, ao voltar da lua de mel, já doente de tuberculose, acabou contraindo cólera e morrendo em 1789. O pai da moça, que era devoto da Igreja do Purgatório ad Arco, quis que ela fosse sepultada ali. Visto a triste história de amor difícil da moça, as solteironas iniciaram a pedir um marido à alma de Lucia! Por isso o crânio é coberto por um véu de noiva e, durante uma das últimas restaurações da igreja, encontraram um vestido de noiva ainda embalado, certamente uma promessa de alguém a Lucia.

Obviamente esse culto aos mortos nunca foi aceito ou reconhecido pela Igreja Católica. Os tribunais eclesiásticos sancionaram a proibição do culto aos defuntos em 1969, mas isso não impediu que a população continuasse a pedir graças às almas. Em 1980 um terremoto levou ao fechamento da igreja e seu cemitério subterrâneo. Ambos foram reabertos em 1992, após um grande trabalho de restauração.

Igreja do Purgatório ad Arco em Nápoles

“Puoi mangiare veleno e partorire morte” é o título da escultura realizada pelo artista napolitano Aniello Scotto. Ela foi doada pelo escultor ao Complexo Museal de Santa Maria das Almas do Purgatório e está exposta no hipogeu da igreja. A frase significa literalmente “você pode comer veneno e parir morte”, no sentido que se alguém deseja o mal a uma pessoa, mal sabe o que lhe espera no futuro!

Além da igreja do Purgatorio ad Arco, outros lugares de Nápoles onde é possível ver esse culto dos mortos é o cemitério delle Fontanelle e a Basílica de San Pietro ad Aram.

 

Informações práticas

Se você quiser visitar o complexo da Igreja do Purgatorio ad Arco em Nápoles, preste atenção aos horários de funcionamento:

  • Igreja, museu e hipogeu: de segunda a sexta-feira das 10 às 14h / sábados das 10 às 17h / domingo das 10 às 14h;
  • A entrada da igreja é gratuita, mas para visitar o hipogeu é necessário adquirir um ingresso no valor de 5 euros. Todas as visitas são guiadas;

 

Mais dicas

Saiba mais

* Este post contém links para afiliados. Para ver nossa política de monetização, clique aqui.

 

♦ Mapa                                                                                     

The following two tabs change content below.
Patrícia Kalil
Patricia Kalil, graduada em administração de empresas, mora na Sicília desde 2007 e é autora do blog Descobrindo a Sicília. Ela deixou o calor e as festas de Salvador para abraçar as belezas de outro lugar tão acolhedor quanto a Bahia e mergulhou na cultura e na história milenar da Sicília. Apaixonada desde sempre por viagens e pela língua e cultura italiana, acabou unindo o útil ao agradável e decidiu espalhar aos quatro ventos que a Sicília merece ser vista.
 

Deixe uma resposta

Style Switcher

Skin:

Backgrounds:

                       

You can also upload your own background from the Admin Panel.

Highlight Color:

             

Best viewed within the shop.

You can also create your own highlight color from the Admin Panel.