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Vamos repercorrer juntos a história dos doces típicos do Natal na Itália, que podem variar muito de região para região, mas que indiscutivelmente têm em comum a qualidade das matérias-primas e a originalidade.

Na Itália, cada região, às vezes até cada cidade, tem seu próprio doce típico. Por aqui há infinidade de bolos, biscoitos e doces para serem apreciados nas festas de fim de ano, e os pan “alguma coisa”, não somente panetone! Certamente você que tem origens italianas deve lembrar de alguma receitinha especial da sua família que era preparada  neste período do ano, não é mesmo?

Por isso, selecionei aqui 12 doces típicos do Natal na Itália e conto a história deles!

 

Milão e o panetone

Panetone. Foto: Pexels

Quando a gente pensa nos doces típicos do Natal na Itália é impossível não lembrar primeiramente do panetone!

Com sua típica forma cilíndrica, dada da forma onde é feito, a receita tradicional do panetone leva ovos, manteiga, farinha de trigo, passas e frutas cristalizadas. Hoje existem várias versões: com chocolate, recheado com cremes dos mais variados tipos, isso sem falar na versão “sem” passas e/ou frutas cristalizadas, para quem não é fã deles.

A história do panetone remonta ao século XV, na Milão onde reinava o duque Ludovico Il Moro, mas não se sabe exatamente como ele nasceu. Duas são as lendas.

A primeira diz que o panetone teria sido uma receita realizada às pressas, para remediar um erro do cozinheiro, que teria queimado o doce destinado aos convidados do duque no dia de Natal. Foi aí que o ajudante de cozinha, Toni, teve a ideia de fazer um doce com os ingredientes disponíveis na cozinha. O resultado foi um doce muito gostoso, apreciados por todos, tanto de chamá-lo “el pan del Toni”, o famoso panetone hoje conhecido no mundo todo.

A outra lenda está ligada a uma história de amor. Messer Ulivo degli Atellani, falconiere, apaixonado pela filha de um padeiro, fez de tudo para ser contratado por este e trabalhar na sua padaria, de modo que ficasse o mais perto possível da donzela. Para impressioná-la, decidiu criar um pão doce, utilizando os melhores ingredientes. Este pão fez um grande sucesso, atraindo muitos clientes para a padaria.

 

Verona e o pandoro

Pandoro – Foto: Nikolas Pivlic (Flickr)

O pandoro é o outro doce de natal tradicional italiano. Macio, com um delicioso perfume de baunilha e manteiga, é uma espécie de brioche alta, de forma estelada e coberto de açúcar de confeiteiro.

Suas origens se confundem com as de outros doces veroneses: desde o nadalin, criado no século XIII para festejar o primeiro Natal de Verona sob a senhoria dos Scala, ao pan de oro, do século XVIII, um doce tão rico que reza a lenda que ele era coberto com folhas de ouro. Era o período mais flórido da república de Veneza.

Mas o pandoro assim como o conhecemos hoje nasceu exatamente em 14 de outubro de 1894, dia em que o confeiteiro Domenico Melegatti, fundador da fábrida de doces Melegatti, deu entrada no pedido de patenteamento do doce “pandoro”. Foi Melegatti a implementar as primeiras máquinas para a produção e distribuição em larga escala deste doce. Sua inconfundível forma se dá ao molde que Domenico Melegatti encomendou ao artista veronese Angelo dall’Oca Bianca. Já o nome, se diz, derivaria da exclamação de um ajudante da confeitaria, que ao ver o doce, disse maravilhado: “L’è proprio un pan de oro!”

 

Genova e o pandolce

Pandolce de Genova – Foto: Wikimedia Commons

Genova também tem seu “panetone”,  um pão doce especial que passa por uma longa fermentação natural e feito com uvas passas, pinoli, erva doce, farinha de trigo, água de flor de laranjeira e pedacinhos de cidra e abóbora cristalizados.

Antigamente eram usados azeite de oliva e mel no lugar de açúcar e manteiga, ingredientes que hoje, para nós, são comuns, mas que naquela época eram muito caros e difícil de achar.

A história do pandolce também é muito antiga, remonta ao tempo do almirante Andrea Doria, no século XVI, o qual, após um concurso entre confeiteiros de Genova, consagrou o pandolce como o melhor doce da cidade, símbolo da sua riqueza.

Além disso, é um doce que pode ser conservado por muito tempo, o que o tornava ideal para ser mantido nas dispensas dos navios.

Existem duas versões do pandolce: uma alta, fermentada por mais tempo, e uma baixa, que fermenta por menos tempo. A tradição pede que o membro mais jovem da familia insira um raminho de louro no alto do pandolce, como amuleto da sorte, enquanto cabe ao componente mais velho cortá-lo e guardar um pedaço para ser doado aos pobres.

 

O Friuli e a gubana

Gubana – Foto: Wikimedia Commons

A gubana é o doce típico do Vale de Natisone, áreas de fronteira com a Eslovênia, na província de Udine. Parece, de fato, que este doce represente uma ponte entre as tradições culinárias entre os dois países. O nome derivaria do esloveno “gubat”, que significa enrolar ou “guba”, dobra. Realmente ele é um rolo dobrado em forma de caracol, aromatizado com grappa e recheado com bastante fruta seca e frutas cristalizadas.

As primeiras notícias que se tem deste doce remontam a  1409, na cidade de Cividale del Friuli, na ocasião de um rico banquete preparado para a visita do papa Gregorio XII. Mas ele poderia ser ainda mais antigo, visto que os romanos já tinham o hábito de rechear os pães com fruta e mel.

 

Roma e o pangiallo

Pangiallo de Roma – Foto: Wikimedia Commons

Típico de Roma e outras cidades da região Lazio, o pangiallo, um pão amarelo dourado (amarelo em italiano se diz ‘giallo’) cheio de frutas secas, passas, especiarias e frutas cristalizadas, tem origens muito antigas, na época do Império Romano!

Na Antiga Roma era uma tradição preparar doces amarelos e distribuí-los  durante a festa do solstício de inverno (21 de dezembro) como oferta para favorecer o retorno do sol. Ao longo dos séculos, sua memória não deixou de permanecer viva, transformando – o que na época dos romanos parecia uma massa macia – no saboroso “pangiallo” romano, arredondado, de cor âmbar.

A cor amarela do pangiallo se dá por causa do glacê que o cobre, que é feito com açafrão. As frutas secas, no entanto, são uma adição recente: antigamente os romanos usavam caroços de damasco e de ameixas tostados, já que nozes, avelãs e amêndoas eram muito caras.

 

Siena e o panforte

Panforte de Siena – Foto: Vivi Toscana (Flickr)

A história da Panforte de Siena remonta ao período medieval. Já em no século XIII era produzido um pão muito rico em mel e especiarias. No entanto, a partir do século XV, o produto adquiriu grande fama, também graças ao comércio fora do território local: além de Roma, ele era apreciado como um produto requintado nas principais cortes europeias. O panforte ganhou ainda mais força no século XIX, quando a produção deixou de ser exclusiva das lojas de especiarias, e ganhou uma dimensão maior.

Não existe uma receita exata do panforte, ela meio que varia de família para família, mas é basicamente um doce a base de amêndoas e frutas cristalizadas. Há várias versões do panforte:

  • O panforte preto ou panpepato é o panforte classico, com cobertura de especiarias.
  • O panforte de chocolate, também chamado de “panforte das damas” por ter um sabor mais delicado.
  • O panforte branco ou panforte margherita criado na ocasião da visita a Siena da rainha Margherita de Savoia. É doce e delicado, perfumado com baunilha, e feito com cidra cristalizada.
  • O panforte florido, que é mais recente e remonta ao início do século XX: é um panforte branco decorado com flores de açúcar, que reflete a tradição de apresentar o panforte em esplêndidas caixas pintadas com decorações florais realizadas por artistas.

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Ferrara e o pampepato

Pampetato- Foto: Proloco Ferrara

No século XVII, as freiras do Mosteiro de Corpus Domini de Ferrara, inspiradas em uma receita antiga do grande chef renascentista Cristoforo da Messisbugo, criaram um doce para enviar às grandes personalidades da época. O cacau, recém-chegado à Europa, era um item de luxo, destinado a poucos e adicionado como jóia, um pó precioso.

O pampetato tem forma de cúpula, é decorado com amêndoas ou avelãs muito finas, frutas cristalizadas, aromatizadas com especiarias e, por fim, coberto com um glacê de chocolate meio amargo. Assim, o doce rico torna-se o Pan do Papa. É fácil entender a quem essa maravilha foi dedicada! Uma linguagem antiga, poética e perdida a transforma em Pampapato e Pampepato. Durante séculos, os dois nomes coexistem e a substância não muda. É o doce do Natal, das festas, é a sobremesa que melhor representa a riqueza e o requinte de Ferrara.

 

Nápoles e os struffoli

Struffoli de Nápoles – Foto: Wikimedia Commons

Bolinhas de massa, primeiro fritas e depois completamente cobertas com mel e decoradas com bolinhas coloridas. Esses são os struffoli, um dos doces típicos do Natal em Nápoles e outras cidades da Campania.

Parece que os inventores dos struffoli foram os gregos; o nome deriva da palavra “strongoulus”, que significa “arredondado”, e de “pristòs”, que significa “recortar”, embora outra versão do nome queira que a palavra struffolo derive de “esfregar”, que é um pouco é o gesto que é feito para trabalhar a massa.

Na preparação do struffoli, nada é deixado ao acaso: o struffolo verdadeiro deve ser pequeno para formar o máximo de bolinhas possível e deve ser coberto com a quantidade certa de mel Struffoli. Igualmente importantes são as decorações, geralmente compostas por laranja, cedro, abóbora cristalizada e bolinhas coloridas.

 

Reggio Calabria e os petrali

Petrali de Reggio Calabria – Foto: Wikimedia Comons

Os petrali são doces de origem antiga, típicos de Reggio Calabria, cujos ingredientes eram conservados durante o ano apenas para serem usados no Natal. É uma espécie de biscoito feito com farinha de trigo, fermento, ovos, azeite, açúcar e um vinho doce branco. São feitos pequenos discos de massa que contêm recheio de figos secos, nozes, amêndoas, casca de tangerina ralada, tudo misturados com vinho e mel cozidos e aromatizados com canela e cravo e.

Os petrali podem ser fechados ou abertos, sendo estes últimos decorados com pedacinhos de massa e granulados coloridos, enquanto aqueles fechadas são cobertos com glacê branco ou de chocolate e sempre decorados com granulados coloridos.

 

Puglia e a cartellata al vincotto

Foto: Wikimedia Commons

A cartellata é o principal doce de natal da Puglia. Durante as festas de fim de ano, são preparadas bandejas e mais bandejas de cartellate. Também conhecidos como “carteddate” ou “nèvole”, dependendo da área, esses ninhos de massa frita são feitos com ingredientes simples, mas requerem uma preparação longa e trabalhosa.

A preparação da cartellata é feita compondo fitas de uma fina folha de massa, obtida com farinha de trigo, óleo e vinho branco, unidas e enroladas para formar, precisamente, uma “rosa” (ou ‘coroa’), e então fritas. Depois disso as cartellate são passadas no vincotto, ou seja, o mosto de uva cozido.

A história das cartellate, segundo alguns, seria até milenar. Em uma pintura rupestre do século VI a.C, encontrada perto de Bari, é mostrada a preparação de doces muito semelhantes a esses, provavelmente de origem grega, representados como oferendas aos deuses.

 

Piemonte e o tronchetto di Natale

Tronchetto di Natale… de deixar qualquer um babando! Foto: Pixabay

Muitos acreditam que o Tronchetto di Natale nasceu nos países do norte da Europa onde, ao que parece, era preparado desde a Idade Média, até chegar aos Alpes franceses e, inevitavelmente, no Piemonte. Na verdade, nesses países, era particularmente comum manter um grande tronco para queimar na lareira durante a noite de Natal para aquecer simbolicamente o menino Jesus. Nesse caso, a sobremesa piemontesa seria um parente muito próximo do chamado “Buche de Noel”, a sobremesa preparada nos países francófonos em memória da antiga tradição da árvore de Natal.

Mesmo não sendo exatamente italiano, o Tronchetto di Natale piemontês é uma verdadeira alegria para o paladar que reúne, em uma única receita, sabores deliciosos como chocolate, castanhas, creme e conhaque.

 

Sicília e o buccellato

Buccellato siciliano – Foto: Wikimedia Commons

O Buccellato siciliano é uma espécie de rosca de massa frola e ricamente decorada, como acontece com muitos doces sicilianos. O buccellato não é apenas para ser comido, mas também para ser “mostrado”: na verdade, a tradição quer que seja exibida como um centro de mesa durante as festas de Natal.

Buccellato (ou cucciddatu), como muitos doces e pratos típicos da tradição siciliana, é fruto de muitos anos de história e contaminação cultural. O nome deriva do latim “buccellatum”, um pão doce em forma de rosca que os antigos romanos usavam para preparar e compartilhar em tempos de celebração.

No entanto, parece que este doce se inspira mais diretamente na tradição da Toscana. De fato, em Lucca, desde os tempos da Idade Média, é costume preparar um bolo na forma de uma rosquinha cheia de passas, que não por acaso também é chamado de buccellato. De fato, o encontro entre as duas culturas teria ocorrido na Idade Média, com a chegada de uma comunidade de Lucca na capital da Sicília, que começou a divulgar a receita. Na Sicília, é claro, a sobremesa sofreu influências árabes, sendo enriquecida com novos ingredientes, como cidra, laranjas, amêndoas, figos secos e canela.

***

Então quais desses doces típicos do Natal na Itália você conhece e já provou? Obviamente não vale citar o panetone! 🙂

 

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2 Comments

  1. Silvia siqueira / 05/12/2019 at 10:41 /Responder

    Maravilhosa sua explicação !!
    Parabéns

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