By

Share on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Pin on Pinterest0Share on Tumblr0Email this to someonePrint this page

Tendo planejado uma viagem à Puglia e Basilicata de última hora, acabei ficando sem opções de hotéis em Matera. Foi assim que decidi ficar na cidade ao lado, Altamura, e aproveitei para conhecer a cidade, mundialmente famosa pelo seu pão.

Altamura dista cerca de 20km de Matera e 47km de Bari e quase não entra no roteiro do brasileiro e de muitos turistas que escolhem a Puglia como meta de férias. Mas nós estamos aqui para contar uma outra Itália, aquela menos conhecida e, por isso, desta vez não se trata de uma localidade com praias cenográficas e mar cristalino, mas sim de uma cidadezinha localizada na região da Murgia, um grande planalto rochoso calcário que cobre uma grande área do centro da Puglia, entre Taranto e Brindisi, e que inclui também parte da província de Matera, na Basilicata.

Altamura é um lugar onde natureza, história, cultura e gastronomia se entrelaçam. Um destino que oferece diferentes e interessantes itinerários culturais e gastronômicos, onde o pão é sempre protagonista. Para vocês terem uma ideia do renome e da importância do pão de Altamura, já no ano 37 a.C., o poeta Horácio afirmou que ali se encontrava “o melhor pão do mundo, tanto que o viajante sábio leva consigo uma quantidade dele na continuação da viagem”.

Altamura9

O pão de Altamura

Um pouco da história de Altamura

Dá para entender facilmente a origem do nome Altamura, que deriva de “altus murus”, ou seja, das muralhas megalíticas do século VI a.C., que serviam para defesa da cidade.

Altamura ficava em um território muito fértil, rico de campos de trigo, vinhedos e olivais. Por esse motivo era muito desejada por Taranto, que tentava conquistar todo o território. Na época, Altamura tinha três faixas de muralhas: a externa, de origem megalítica, imensa, a do meio (que hoje não existe mais) e a interna, que atualmente circunda o centro histórico. Todas as três coincidiam na porta Matera.

Com a crise do Império Romano, a cidade foi sendo aos poucos abandonada. Foi somente no século XIII, durante o reinado de Frederico II, rei das Duas Sicílias (a Puglia também fazia parte do reino), que a cidade voltou a se povoar. Frederico II é considerado o re-fundador de Altamura. Quando o imperador, no século XII, subiu a colina de Altamura, a cidade havia sido destruída pelos sarracenos. Ele decidiu reconstruí-la. Após a reconstrução e repovoamento da cidade, ele a chamou de Altamura. Em 1232 ele ordenou a construção da grande catedral.

Catedral de Altamura

O que ver em Altamura

Em um dia inteiro dá para visitar Altamura. Eu passei duas noites lá, mas um dos dias foi todo dedicado à visita de Matera. Assim, no tempo restante, deu para conhecer com calma tudo que a cidade tem a oferecer. Além de um passeio no centro histórico, reconstruído por Frederico II no século XII, que mandou erguer a catedral, hoje considerada um dos mais importantes monumentos cristãos no mundo, vale a pena também conhecer o museu arqueológico e outros lugares nas redondezas…

Altamura7

Corso Federico II

O Corso Federico II é, digamos, a rua principal do centro histórico de Altamura e o atravessa completamente, da Porta Bari à Porta Matera. A rua é repleta de bares e lojas e onde a população passeia nos fins de tarde. Notei, inclusive, crianças brincando sozinhas ou passeando com coleguinhas. Há tempos que eu não via isso!

Altamura12

A Porta Matera

Você pode percorrer a inteira rua, indo de uma ponta à outra, observando os lindos palácios. Além da catedral, da qual falarei a seguir, há também uma outra interessante igreja, dedicada a San Nicola dei Greci. Ela também foi construída por ordem de Frederico II, mas reconstruída no século XVI. Lá eram celebradas missas seguindo o ritual grego.

Altamura17

A igreja de San Nicola dei Greci, em Altamura.

 

A Catedral de Santa Maria Assunta

A Catedral de Altamura, dedicada a Santa Maria Assunta (Nossa Senhora da Assunção), foi construída por Frederico II entre 1232 e 1254. Em parte destruída, provavelmente por um terremoto, foi reconstruída em 1316.

É um belo conjunto arquitetônico e denota leveza e agilidade. Seu estilo é classificado em não puro, mas consiste em um conjunto de elementos arquitetônicos tão bem coordenados entre si que oferecem uma beleza harmoniosa e unitária.

Catedral de Altamura

No exterior é possível admirar o portal, ladeado por dois leões do século XVI, as duas grandes torres campanárias e, no meio, uma magnífica rosácea de 15 raios com um anel ricamente esculpido.

Altamura1

O lindíssimo portal da Catedral de Altamura, considerado um dos mais imponentes da Puglia.

O interior tem uma decoração do século XIX, mas apresenta ainda a estrutura original com as colunas finas das naves, os preciosos capitéis e as ricas esculturas que coroam todas as portas e janelas.

Catedral de Altamura2

Os claustros e vielas

Basta um rápido passeio pelo centro histórico de Altamura para que a gente se dê conta que a parte antiga tem uma forma muito peculiar, cheia de becos que lembram bairros árabes, outros em estilo grego. A particularidade destes becos é que alguns terminam em pátios bem mantidos pelos habitantes, repletos de plantas e flores.

Altamura3

Pelos claustros de Altamura

Antigamente esses claustros se tornavam verdadeiras escolinhas, onde as professoras eram as mulheres mais velhas do condomínio, que ensinavam as meninas a fazer os diversos tipos de macarrão e a costurar.

 

Os fornos e padarias tradicionais

No centro histórico de Altamura restam ainda três padarias históricas, onde é possível degustar o famoso pão da cidade. Eu visitei o Antico Forno Santa Chiara, que é datado de 1423. É um dos primeiros fornos públicos de Altamura, utilizados para assar o pão típico.

Altamura

Dentro da padaria há um imenso forno a lenha onde as pessoas podiam levar o próprio pão feito em casa para assar. As mulheres deixavam o pão “na fila” e voltavam mais tarde para pegá-lo, já pronto.

Altamura5

Hoje em dia, as padarias viraram verdadeiras atrações turísticas onde é possível comprar todos os produtos típicos de forno da região.

Além do Forno Santa Chiara, há também o Panificio Fratelli di Gesù e o Forno Antico Santa Caterina.

Endereços:

  • Forno Santa Chiara: Via Luca Martucci
  • Panificio Fratelli di Gesù: Via Pimentel, 17
  • Forno Santa Caterina: Via Ambrogio del Giudice, 2

Altamura

Veja esta opção de passeio guiado (em inglês) em Altamura com degustação de pão e focaccia!

 

Moinho Dibenedetto

Encontrei várias referências sobre o moinho artesanal Dibenedetto, e que grata surpresa!

O moinho fica um pouco fora do centro histórico (coisa de 10 minutos a pé) e produz vários tipos de farinha, tanto de trigo quanto de outros grãos.

Entrando no moinho quem nos recebe é o proprietário em pessoa, o Sr. Mario. Logo quando a gente entra, há uma lojinha onde se vende vários tipos de macarrão e de farinhas. Eu me aproximei do Sr. Mario e perguntei se ele podia me contar um pouco da história do moinho, porque havia lido ótimas avaliações sobre o lugar. O Sr. Mario simplesmente começou a me contar toda a história do lugar, fundado pelo avô dele no início dos anos 50.

Altamura15

As máquinas originais dos anos 50.

Chegaram outros clientes e se uniram a nós, ouvindo o modo apaixonado como o Sr. Mario contava a história do lugar e o quanto seja difícil sobreviver em um mundo onde os produtos industrializados vendidos a preço  muito baixo dominam o mercado.

Além de contar a história do moinho, ele ainda explicou todo o processo de produção das farinhas, os diferentes tipos, os grãos utilizados e os malefícios que as farinhas refinadas utilizadas na maior parte dos produtos industrializados nos trazem. Não pude sair de lá sem deixar de comprar um pouco de farinha de trigo artesanal e de massas feitas com o trigo do moinho Dibenedetto!

Altamura16

A maior parte do trigo utilizado é do tipo Senatore Cappelli (Triticum durum), uma antiga variedade de trigo duro moderno. O nome é em homenagem a um senador chamadi Raffaele Cappelli, em cujas terras o geneticista agrícola Nazareno Strampelli, no início do século XX, fez algumas semeaduras experimentais, cruzando trigos duros diferentes, a fim de obter uma variedade mais produtiva e resistente a doenças. Descrito como “raça escolhida” nos anos 30 e 40, o trigo Senatore Cappelli foi, por décadas, o mais cultivado no sul da Itália, especialmente na Basilicata
e na Puglia. Ele é considerado uma variedade de grande prestígio e valor, porque não sofreu alterações de técnicas modernas e manipulação genética, preservando-se inalterado ao longo do tempo. Por este motivo ele tem ótimos sabor e conteúdo nutricional, sendo inclusive um trigo de alta tolerabilidade.

Depois de ter visitado o moinho Dibenedetto, aprendi muito sobre o trigo e que nem todos fazem tão mal assim!

Informações:

O moinho Dibenedetto abre de segunda a sexta, das 8 às 13h e das 15 às 19h. Aos sábados abre somente pela manhã. Mais informações AQUI.

 

O homem de Altamura

Em 1993, durante a exploração de uma caverna chamada Gruta de Lamalunga, nos arredores de Altamura, alguns espeleólogos encontraram um esqueleto incorporado na formação de calcário. Após uma pesquisa muito minuciosa, foi confirmado que se tratava dos restos perfeitamente preservados de Homo sapiens neanderthalensis (que datam do período paleolítico médio, cerca de 200.000 anos atrás): único caso de esqueleto humano paleolítico. Ele foi apelidado de Homem de Altamura.

A esta grande descoberta foram dedicados dois espaços em Altamura: um é o Centro Studi Lama Lunga, que dispõe de um pequeno museu e onde é reproduzido um video em 3D sobre o homem de Altamura.

O outro lugar é o Museu Arqueológico, onde há uma série de achados arqueológicos que remontam ao período entre os séculos VIII e V a.C. Mas a verdadeira atração do museu é uma reprodução hiper-realista do homem de Altamura feitas pelos artistas holandeses Adrie e Alfons Kennis: é um modelo em escala real (1,60m de altura), com cabelo, barba e bigode. Impressionante!

Altamura8

A reprodução do homem de Altamura em exposição no museu arqueológico.

Informações:

  • Centro Studi Lama Lunga: Via Madonna Buoncammino. Horários de abertura: de terça a domingo, das 9 às 13h e das 14h30 às 18h. Ingresso: 2,50 euros
  • Museu Arqueológico de Altamura: Via Santeramo, 88. Horários de abertura: de segunda a sexta, das 9 às 13h e das 14h30 às 18h. Sábados, domingos e feriados, somente pela manhã.

 

O que comer em Altamura

Não tem só pão para comer em Altamura! Ok, tem bruschetta, pão com azeite, pão torrado, pão com geléia… mas não só :D.

Um doce típico é a “tetta di monaca” (seio de freira!), um bolinho macio recheado com creme chantilly.

Altamura14

Tetta di monaca e chocolate quente! Uma combinação perfeita.

Para quem não teme o alto teor alcoólico, um licor digestivo renomado é o Padre Peppe (feito com nozes) cuja receita é atribuída a um frade do século XVII, daí o nome. É muito, muito forte. Não consegui tomar mais que um gole!

Nos restaurantes você encontrará pratos com cogumelos cardoncelli, produtos espontâneos da Murgia, deliciosos e carnosos. O planalto da Murgia oferece também o melhor cordeiro da região, que é o destaque da gastronomia de Altamura. Ele pode ser preparado de várias maneiras: assado e temperado com ervas e vegetais silvestres, tais como erva-doce, a chicória, cardoncelli e cebolas. Outro produto delicioso, que fiz questão de provar, foram as linguiças, não preparadas com carne moída, mas picadinha com a faca, uma especialidades de açougueiros locais.

Altamura13

Como chegar a Altamura

De trem: Há um serviço de trens locais da Ferrovia Appulo Lucane que liga Altamura a Bari e a Matera. Veja horários e tarifas aqui.

Com um transfer particular: Você pode ir a Altamura com toda a comodidade de um serviço de transfer particular. Saiba mais AQUI.

* Este post contém links para afiliados. Para ver nossa política de monetização, clique aqui.

♦ Mapa                                                                                     

The following two tabs change content below.
Patrícia Kalil
Patricia Kalil, graduada em administração de empresas, mora na Sicília desde 2007 e é autora do blog Descobrindo a Sicília. Ela deixou o calor e as festas de Salvador para abraçar as belezas de outro lugar tão acolhedor quanto a Bahia e mergulhou na cultura e na história milenar da Sicília. Apaixonada desde sempre por viagens e pela língua e cultura italiana, acabou unindo o útil ao agradável e decidiu espalhar aos quatro ventos que a Sicília merece ser vista.

2 Comments

  1. THAIS APARECIDA DA SILVA MARQUES / 15/07/2017 at 02:25 /Responder

    Oi Patrícia!
    Já acompanho e montei minha viagem à Sicilia baseada no seu blog e este ano vou para Púglia na 1a quinzena de Outubro e, como sempre, você com dicas muito interessantes. Você recomenda algum hotel na cidade de Altamura?

    • Patrícia Kalil
      Patrícia Kalil / 15/07/2017 at 09:42 /Responder

      Oi Thais!!

      Que legal que vai para a Puglia também! 🙂

      Olha, em Altamura eu fiquei no hotel San Nicola, mas não me hospedaria lá novamente. É muito central, localização perfeita, limpo, porém precisa daquela reforma geral, porque é muito antigo. Voltando a Altamura, eu certamente procuraria um B&B que fique nos edifícios típicos em pedra, tem vários charmosos lá, mas na época que reservei não havia mais quartos disponiveis. Dá uma olhada aqui: https://www.booking.com/searchresults.html?city=-110283&aid=828279&no_rooms=1&group_adults=1. Tem o Malandrì e o B&B del Duomo que na época eu tava “namorando”.

      Um abraço,

      Patricia

Deixe uma resposta

Style Switcher

Skin:

Backgrounds:

                       

You can also upload your own background from the Admin Panel.

Highlight Color:

             

Best viewed within the shop.

You can also create your own highlight color from the Admin Panel.